O estado emocional do país
As mudanças propostas afetam negativamente a vida dos trabalhadores, retirando garantias conquistadas por décadas de lutas sociais e políticas. (José Cruz/ABr)
Por Reinaldo Lobo*
Os brasileiros estão confusos com o espetáculo da crise brasileira na TV e nas redes sociais. Não é mais possível a simples polarização entre o bem e o mal, nem a busca de um único inimigo ao qual acusar. Não existe apenas uma Gení a servir de bode expiatório. Todos “são culpados” e não se sabe mais em quem confiar.
A novela da Lava Jato, acompanhada em capítulos estudadamente vazados para a mídia a fim de ganhar “apoio da população” - como disse o juiz Moro - parece que não terá um final feliz. Ou, pelo menos, tudo indica que acabou em paradoxo e complexidade, mas os seus agentes ainda não perceberam. Moro ainda tem a chance de atingir um ponto de sua missão, Lula, principal alvo inicial da operação, mas até isso está difícil agora.
Curiosamente, a oposição principal à operação parte hoje de quem fingia defendê-la e queria servir-se dela para seus objetivos políticos.
A onipresença da mídia na sociedade, a manipulação dos estados emocionais dos cidadãos pelo impacto das notícias e dos comentários, o partidarismo da nossa imprensa – tudo isso leva à crença de que teríamos um povo mais politizado e consciente, mas não é bem assim.
Os brasileiros estão perdidos com as mensagens contraditórias emitidas pelo Judiciário, pelos partidos e pelos meios de comunicação. Os que saíram às ruas de camisas amarelas pedindo o fim da corrupção estão perplexos e paralisados. Viram mais tarde muitos dos corruptos notórios nas fotos de suas próprias passeatas.
Como entender que a Rede Globo, principal geradora dessa novela e formadora de opinião no país, passe de uma posição a outra, por motivos pouco conhecidos do público?
Quem é o sujeito da ação política por trás do comando do espetáculo? Essa é uma indagação sem resposta visível para o povo.
Os segmentos mais populares, sem camisas amarelas, estão numa angustiante expectativa sobre quais direitos sociais terão depois das chamadas “reformas”, desencadeadas em curto espaço de tempo pelo governo pós-impeachment. Só os sindicatos e frações de movimentos sociais fazem manifestações ignoradas em grande parte pela mídia.
Os jovens, estudantes e profissionais, estão divididos entre apoiar os trogloditas da direita, a turma do Bolsonaro, os “gestores” do tipo Dória ou a paralisia da esquerda desmoralizada pelas acusações de corrupção, dividida e relativamente impotente na ação.
No ataque ao sistema corrupto, está acontecendo no país algo semelhante ao que fez o novo prefeito de São Paulo na dita Cracolândia: atacou um ponto como se fosse o único alvo e o crack se espalhou para muitos lugares da cidade, alguns inesperados. As pessoas não sabem se o crack foi eliminado ou se apenas se diversificou.
Os que tinham como referência política um determinado partido - para combater os principais focos de corrupção nacional, segundo sua visão -, perderam a referência ao ver o líder em quem votaram aparecer indigitado por graves denúncias.
Antes, os inimigos eram Lula e Dilma, então como é possível que Aécio Neves e mesmo o “mal menor” apoiado taticamente, Temer, surjam como chefes de quadrilhas?
A essa dificuldade de percepção contraditória chama-se, em psicologia, “dissonância cognitiva”. Essa mesma dissonância afeta a esquerda, quando se vê o principal partido originalmente contrário à corrupção, o PT, com vários líderes citados em listas de propinas e manobras pouco republicanas.
Contra quem dirigir o ódio neste momento, uma vez que a situação de crise econômica, também difícil de compreender, induz a essa emoção forte e politicamente poderosa? Já não é tão fácil achar um culpado, inclusive, pela própria crise econômica.
Como recuperar uma visão de mundo binária, capaz de operar de modo semelhante aos computadores: sim ou não, isto ou aquilo? Apesar desse maniqueísmo não ser desejável, ele oferece às pessoas algum solo onde se apoiar. Não é justificável, mas compreensível. Até esse “consolo” está faltando neste momento da vida do país.
Quando a perplexidade parece diminuir um pouco, logo vem alguma notícia perturbadora e com linguagem de dupla mensagem. A mídia não para de dizer, por exemplo, que as “reformas” do governo pós-impeachment são essenciais para salvar o país e acabar com a crise.
O uso da palavra reforma é enganador nesse caso e passa uma mensagem dúbia. Primeiro, porque nada indica que são verdadeiras reformas, mas medidas de “austeridade”, restaurações, acertos e legislações liberais à moda antiga, quase anteriores à revolução de 1930 - quando houve, aí sim, uma série de reformas que deram maior segurança aos cidadãos em geral e aos trabalhadores, em particular. E nada garante que as tais “reformas” atuais vão tirar o país da crise econômica e, menos ainda, da precária situação política. Apenas ameaçam lançar o ônus da crise para os mais pobres.
Um ponto parece certo: as mudanças propostas afetam negativamente a vida dos trabalhadores, retirando garantias conquistadas por décadas de lutas sociais e políticas.
Como é possível confiar nas diretrizes propostas por quem dirige a vida nacional se as próprias palavras usadas são ambíguas ou contraditórias?
Certamente, os mais pobres são os que têm as maiores expectativas, mas são também os que mais desconfiam e temem o futuro.