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O significado de festejar o Corpo de Cristo

Celebramos um Deus que se dá no corpo, para a salvação do mundo.
Celebramos um Deus que se dá no corpo, para a salvação do mundo. (Divulgação)
Por Felipe Magalhães Francisco*
Passada a festa de Corpus Christi, resta a tarefa de refletir, como quem em um eco, um tema fundamental para o cristianismo: o corpo, evocado pela própria liturgia festiva. Em todos os cantos, bonitos tapetes de serragem colorida formavam o caminho pelo qual passaria a procissão, quando a eucaristia, num ostensório, estaria exposta. A procissão com o Santíssimo Sacramento, que remonta à Idade Média, torna a ganhar valor em nossa sociedade que tem necessidade das imagens. Mas o que significa, desde tempos antigos até hoje, celebrar o Corpo de Cristo?
A festa de Corpus Christi surge, no século XII, num contexto conturbado, envolvendo controvérsias eucarísticas, quando foi preciso insistir na presença real de Jesus na eucaristia. Essa festa, então, surge para sensibilizar os fiéis à devoção ao Santíssimo Sacramento. Certamente, ainda que tenha surgido por uma questão pontual, de nível pastoral-devocional, essa festa abarca um pressuposto teológico forte: o lugar do corpo de Cristo na salvação do ser humano é central, pois diz respeito à própria encarnação do Filho de Deus. Celebramos, pois, um Deus que se dá no corpo, para a salvação do mundo.
É a respeito dessa temática que dedicamos o primeiro artigo de nossa matéria: Eucaristia, corpo dado, vida doada, do Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN. No artigo, o autor reflete sobre o lugar da eucaristia na vida da Igreja, a partir da perspectiva da doação de Cristo, que interpela a cada um de nós, à mesma doação. Esse é um apelo que precisa ecoar com muita expressão, em uma cultura tão marcada pelo individualismo.
Ampliando a discussão, o segundo artigo, Quem tem medo do corpo?, de nossa autoria, reflete sobre o lugar central do corpo no cristianismo. Partindo de um olhar histórico, propomos uma leitura teológica do corpo, como foco na encarnação do Filho de Deus. O artigo reflete, ainda, sobre as tendências atuais no cristianismo em relação à temática do corpo, chamando a atenção para os riscos que tais tendências trazem.
Numa perspectiva ética, que perpassa os dois artigos anteriores, o terceiro e último artigo, Corpos negligenciados, cristianismo desencarnado, da teóloga Tânia Mayer, completa nossa matéria, refletindo sobre a dicotomia entre a fé na encarnação e a negligência, por parte dos cristãos e cristãs, dos corpos de muitos irmãos e irmãs, que carregam, em si, as marcas do sofrimento de Cristo, completando-o.
Juntos, os três artigos propõem um olhar teológico atual, para essa temática tão importante e central no cristianismo. Celebrar o corpo de Cristo pressupõe interpelar-se no próprio corpo, pois comer e beber do pão e vinho eucaristizados é integrar-se, existencialmente, na vida mesma de Jesus, deixando-nos transformar, pelo Espírito, naquele que comungamos. A beleza dos tapetes e o olhar admirado para a hóstia consagrada, exposta no ostensório, só assim tem valor: quando a eucaristia nos toca, em nossos corpos, para que nos doemos, inteiros, na construção de um Reino verdadeiramente encarnado.
Boa leitura!